quinta-feira, 29 de maio de 2008

São Francisco do Mal

São Francisco do Mal e a Religião Universal da Prosperidade

Uma vez que tenha começado a me dedicar ao i-tv minha postura perante muitas coisas do mundo mudou. Não que antes eu não pregasse o evangelho e não amasse a Deus. Mas o estudo mais sistemático da vida dos inconformados de diversas épocas e o hábito de falar o que penso me fez encarar algumas tarefas cotidianas mais apaixonadamente.
Em minhas aulas de história sempre tenho a oportunidade de falar um pouco de Deus mais abertamente, e um muito mais veladamente, já que creio piamente que a verdade liberta e portanto o conhecimento da história é quase uma prova viva da existência de Deus (e também da ineficiência das religiões institucionalizadas, mas isso já é outra história)
Sempre tenho, por exemplo, um "surgimento do cristianismo" no meio da matéria do Império Romano, um "heresias medievais" no meio de inquisição, uma matéria inteira de reforma protestante, um debate sobre religião e Deus no meio da matéria marxismo e cientificismo no final do século XIX.
Eis entretanto que ontem levei um susto na sala que quase me fez cair pra traz. No meio da matéria Igreja Medieval, falando de São Francisco, de sua regra e de como ela foi detrupada por muitos de seus seguidores, e de como aqueles que não deturparam sua idéia foram perseguidos pela inquisição na chamada seita dos Espirituais Franciscanos.
Um aluno faz o comentário: "Nossa, mas como esse São Francisco era malvado!!!". Creio que em toda a minha vida nunca imaginei ouvir uma frase como aquela, fiquei baqueado, tentando entender o que eu havia falado que teria feito ele chegar a essa conclusão. Deveria ter sido alguma frase ambigua minha, ou uma palavra trocada vencida pela minha dislexia.
Outros alunos logo começam a explicar o motivo pelo qual concordavam com o seu colega: "qual o problema de querer ser rico professor?", "vendeu tudo o que tinha e deu para os mendigos!? que ridículo! ele achava que dinheiro caía do céu?", "mas o pior não é isso. Ele ainda escreve esta regra ridícula querendo fazer outras pessoas tomarem a mesma atitude dele.", "mas é claro que não iam seguir. regras bestas ninguém segue, olha só a corrupção naquela época".
Imediatamente fiquei imaginando algumas daquelas frases no cotidiano dos alunos, será que alguma vez algum deles compartilhou algo que tinha com um colega ou mesmo com alguém que passava e ouviu um sermão de seu pai: "menino dinheiro não cai do céu" ... será que é puro fruto da mídia mostrando dinheiro como a coisa mais importante do mundo, de modo que para eles proibir ter posses era punição só aplicável nos piores crimes?
Como falar da Graça em uma sociedade onde nada é de graça? :compre um produto e por mais dois reais leve outro de graça, já ouviu isso? Já percebeu que o maclanche feliz é mais caro que suas partes separadas? é porque pagamos pelo brinde. E por efeito de fisco pode conferir na notinha o brinde que vocé ganha gratuitamente na compra do lanche é pago. Até a expressão: "qual a sua graça?" caiu em desuso, também pudera por mais que registrar o nome em cartório teoricamente seja de graça sabemos que na maior parte das vezes pagamos até pelo que os antigos chamavam de nossa graça, ou seja, o nome.
Ninguém acha a graça em lugar nenhum... e quando denuncio essa tragédia tenebrosa muitos acham graça de mim ... fazer o quê?
O fato é que em um mundo onde a graça está em seu último suspiro de agonia, obviamente nem a própria igreja poderia ser de graça. Os católicos já se acostumaram a ter que pagar pelo casamento e batismo. ... mas a igreja evangélica caminha agora para o mesmo rumo... quer saber mais de Deus, pague pelo curso básico de teologia, quer ser visto na igreja, dê uma grandiosa oferta, se bobear algumas até devem estar alugando os bancos da frente.
E é claro que em um mundo onde Mamon, o deus do dinheiro, é nosso fruto de idolatria monoteísta, então seus terríveis inimigos só podem ser seres malévolos e dignos de repúdio, homens como Såo Francisco precisam mesmo ser repudiados ... imaginem se a moda da graça pega e as crianças resolvem vender o que tem e dar aos pobre? imagina se quiserem buscar a santidade? realmente é um perigo que devemos evitar a todo custo. A partir de hoje São Francisco deve ser considerado anátema. O nosso verdadeiro deus das verdinhas agradece.

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